• Vinicius Seabra

O desafio de ajudar crianças disléxicas e com TDAH a aprender Geografia de modo mais eficiente

Entrevistando Sandro Nunes


Olá Sandro, tudo bem? Antes de mais nada gostaríamos de dar os parabéns mais uma vez pelo belíssimo trabalho de monografia “Alfabetização Cartográfica de Alunos com Dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade” defendido recentemente. Fale um pouco sobre você, como resumiria quem você é.

Uma vez, ainda no Ensino Médio, em uma dinâmica de grupo, a professora perguntou a um colega: “se o Sandro fosse uma profissão, qual ele seria?” A resposta foi: “estudante”. Na época achei engraçado, até um pouco sem sentido. Cerca de trinta anos depois, vejo que aquele companheiro de turma conseguiu uma definição precisa. Continuo estudante. O trabalho de aprender é um prazer. Isto me levou, depois de décadas como bacharel em comunicação social e após duas pós-graduações, a uma licenciatura da qual muito me orgulho.

Tenho 46 anos e trabalho há muito tempo no ambiente corporativo. Desde os trinta anos de idade ocupo cargos de gerência e coordenação em atividades cujo objetivo é somente garantir o lucro do “patrão”. Isto não é errado nem desonesto, pelo contrário, movimenta a economia do país. Mas eu queria acordar cedo todos os dias para fazer algo que tivesse uma missão social direta, que pudesse melhorar efetivamente a vida da criança, do jovem, do adulto... enfim, das pessoas. Como faz a Educação.

Pretendo usar minha experiência profissional para dentro da escola e da sala de aula. Quero contribuir para a construção do conhecimento. Se desejamos mudar o país para melhor, a mudança deverá passar pela escola.


Como surgiu o interesse por este tema?


Eu ouvia falar sobre necessidades educacionais especiais, mas era algo muito distante de mim. Até que dois fatos aconteceram. O primeiro: comecei a estudar o tema em minha licenciatura; o segundo fato foi a paternidade e o laudo de dislexia e TDAH do Ismael, meu filho, hoje com onze anos. Naquele momento fui atrás de informação, pois queria entender melhor o assunto. E, ao descobrir tantos alunos com dificuldades causadas por estes transtornos, vi que deveria pensar na questão não só como pai, mas também como professor de Geografia.

Os mapas sempre me fascinaram e sempre vi neles um recurso chave em nossa disciplina. Imaginei então seu uso e sua construção como uma forma de melhorar a atenção e o interesse de crianças que possuem mais tendência à dispersão. Por isso procurei trazer o tema para dentro da Geografia, na Cartografia Escolar.


Imagino que a escolha de um tema pouco discutido na Geografia traz inúmeras dificuldades para a construção de uma monografia. Em algum momento pensou em desistir? Como enfrentou essas dificuldades?


De fato, não foi fácil escolher um tema que não tinha discussão na Geografia. Imaginei então que poderia primeiramente ler o que já se discutira na medicina e na psicologia, áreas que têm mais material sobre o assunto. Em seguida, poderia estudar elementos e recursos da alfabetização cartográfica. Teria que ligar essas duas pontas, buscando uma ligação entre os dois universos que me permitisse atingir os objetivos da pesquisa. Este “link” definiria a viabilidade do projeto. Felizmente conseguimos desenvolvê-lo. Sinceramente, não pensei em desistir. Definir um tema é às vezes tão complicado... e a boa recepção ao pré-projeto pelos tutores e por meu orientador me incentivou a seguir firme.


Consegue transformar seu tema em uma única pergunta? Qual seria “a pergunta” do seu trabalho?


Sim. Tudo começou com a busca por respostas para a seguinte pergunta: o que fazer para superar as limitações e explorar as potencialidades destas crianças?

O desenho que uso nas apresentações do projeto e ao qual dei o nome de Felipe representa todas essas crianças. O que fazer por elas?


As vezes temos uma boa ideia para desenvolver uma pesquisa, mas não encontramos uma “solução metodológica”, o famoso “Como eu vou fazer isso?” Como você encontrou a sua solução? Como você fez?


Eu quis fazer um bom levantamento bibliográfico, pois acredito que toda monografia precisa estar bem embasada teoricamente. Para complementar minha pesquisa vi a necessidade de buscar impressões no campo. Por isso, decidi entrevistar responsáveis e propor atividade com um pequeno grupo de alunos individualmente. O estudo sobre dislexia e TDAH me aproximou de alunos do Ensino Fundamental com estas necessidades educacionais especiais. Tornei-me professor particular destas crianças e ministro aulas não só de Geografia mas também das outras disciplinas. Assim, tive mais facilidade para realizar a pesquisa, na qual obtive informações úteis para a proposta de reflexão sobre o tema.


Na construção do seu trabalho, qual foi a referência que você mais gostou? Qual foi aquela que você leu e pensou assim “poxa, todo professor de Geografia deveria ler isso”?


Essa é fácil de responder (risos). É sobre a relação complementar e indissociável entre o ensino de Geografia e a Cartografia, de Mariza Pissinati e Rosely Archela: “Não há possibilidade de se estudar o espaço sem representá-lo, assim como não podemos representar um espaço vazio de informação”. Esta declaração evidencia muito a importância dos mapas na escola e a necessidade de saber usá-los. Deveria ser referência obrigatória na disciplina Cartografia Básica de todo curso de Geografia.


É possível levar para a sala de aula as coisas que você aprendeu com seu trabalho de conclusão de curso?


Sem dúvida, e eu acredito que este foi o meu maior aprendizado com este trabalho. É mais que utilizar recursos que tornem as aulas mais atraentes para crianças com diagnóstico de TDAH e dislexia. É também despertar no professor a atenção a casos ainda sem diagnóstico. O docente com informação básica sobre o assunto já seria capaz de orientar responsáveis a procurarem um especialista.


Se algum aluno em dificuldade te perguntasse agora “Sandro, o que é importante para uma monografia?” O que você diria? Ou não diria nada (risos)...


Eu diria uma palavra: “referências”. E humildemente aconselharia: leia bastante. Procure referências diversas em livros, artigos, revistas, sites confiáveis. Busque os principais autores dentro de seu tema e veja o que eles têm a dizer. “Dialogue” bastante com eles em sua pesquisa, referencie bem o seu trabalho e veja como ele vai fluir.


Se alguém se interessar por sua monografia, como faz pra ler? Pode deixar um contato


Terei a maior satisfação em compartilhar a monografia. Meu e-mail é sandroprofgeo@gmail.com. Obrigado!

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DAGEOP UERJ-FFP

Grupo de Pesquisa Dinâmicas Ambientais e Geoprocessamento. Departamento de Geografia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Email: dageop.uerj@gmail.com

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Pós Graduação em Geografia